Resumo: Os objetivos deste trabalho foram: a) estimar a freqüência das oclusopatias na dentição decídua e variáveis a elas associadas, como o tipo e o período de amamentação, hábitos deletérios bucais e informações recebidas pelas mães no período do pré-natal; b) avaliar a direção dos movimentos mandibulares no plano frontal, na oclusão decídua, mensurando e relacionando os Ângulos Funcionais Mastigatórios Planas - AFMP com oclusopatias e presença de desgastes fisiológicos; e c) desenvolver um aparato para medir os Ângulos Funcionais Mastigatórios Planas - AFMP na dentição decídua. A amostra constituiu-se de 186 crianças de ambos os sexos, que representaram toda a população de crianças de 5 anos de idade, regularmente matriculadas nas Creches Municipais da cidade de São Pedro, São Paulo, Brasil. A prevalência de oclusopatias na amostra foi alta (95,7%), sendo que 58,6% das crianças apresentaram oclusopatias leves. As oclusopatias mais freqüentes foram em ordem decrescente de freqüência: ligeiro apinhamento ou espaçamentos (23,4%), mordida aberta (22,2%), sobremordida (19,7%), mordida cruzada uni ou bilateral (14,8%), e overjet positivo (12,9%). Na classificação de degrau de molares, o terminal reto apresentou valor epidemiológico alto (84,5%), mostrando uma provável etiologia ambiental dessas oclusopatias. O aleitamento natural acima de 6 meses (33,3%) e o aleitamento natural exclusivo por mais de 3 meses (45,1%) apresentaram valores epidemiológicos baixos, enquanto que a presença de hábitos deletérios bucais mostrou alta freqüência (95,6%) na população estudada. No presente estudo, observou-se que, quando se associavam diversas variáveis independentes em relação à ocorrência de hábitos deletérios bucais, na análise uni variada apenas o tempo de amamentação exclusiva apresentou-se estatisticamente significativo (p= 0,0035). Já em relação à ocorrência das oclusopatias mais freqüentes na amostra, quanto às categorias "ligeiro apinhamento e espaçamento", o tempo de chupeta foi estatisticamente significante (p=0,0320); enquanto que para a "mordida aberta" o tempo de chupeta (p=O,OOI), para a "sobremordida", o tempo de aleitamento (p=0,0152) e o tempo de amamentação exclusiva (p=0,0233) e, para o "overjet positivo," o tempo de amamentação (p=0,0476) se apresentaram estatisticamente significativos. A freqüência dos Ângulos Funcionais Mastigatórios Planas (AFMP) iguais e próximos de zero, que sugerem mastigação bilateral e alternada, foi muito baixa: apenas 10% das crianças apresentou oclusão funcional equilibrada. Quando se associavam diversas variáveis independentes em relação à ocorrência de Ângulos Funcionais Mastigatórios Planas (AFMP) iguais e próximos de zero, verificou-se, na análise univariada, que oclusão normal (p=O,OOII), ligeiro apinhamento ou espaçamento (p=O,OOOI) e presença de desgastes fisiológicos (p=O,OOOOOI) apresentaram-se estatisticamente significativos, enquanto que na análise de regressão logística as crianças que usaram chupeta por mais de 3 anos apresentaram 5,25 maior probabilidade de apresentarem mais mordida aberta que as demais, e existe 19,33 maior probabilidade de apresentarem Ângulos Funcionais Mastigatórios Planas (AFMP) iguais e próximos de zero aquelas crianças que apresentaram oclusão normal classificadas pela OMS. O aparato para medir Ângulos Funcionais Mastigatórios Planas (AFMP) na dentição decídua apresentou estabilidade durante a mensuração e aceitação junto a todas as crianças em que foi aplicado. Conclui-se que a amostra apresentou uma alta prevalência de oclusopatias, bem como presença de hábitos deletérios bucais, sendo que o tempo de amamentação e aleitamento exclusivo foram variáveis importantes associadas ao aparecimento de algumas oclusopatias e hábitos deletérios bucais. Finalmente, pode-se sugerir uma ação mais organizada dos Serviços de Saúde, buscando-se ferramentas capazes de propiciar um diagnóstico mais precoce desses problemas, evitando, desse modo, grande parte das oclusopatias