Resumo: Entre as diversas apresentações clínicas das síndromes talassêmicas a beta-talassemia maior, ou anemia de Cooley, é uma das de maior gravidade. Seus portadores apresentam grave anemia hemolítica, desde os primeiros anos de vida, com intensa hipóxia, levando seus portadores a receber transfusões regulares para manutenção de suas vidas. O regime de transfusão crônica leva à sobrecarga de ferro, que é estocado nas células sob a forma de ferritina. Para minimizar estes efeitos, estes pacientes são submetidos à terapia quelante com desferoxamina, geralmente por via subcutânea. Várias manifestações clínicas podem ser observadas, como hepato e esplenomegalia, alterações ósseas típicas (hiperostose porótica e defeitos corticais devido à hiperplasia medular), alterações endocrinológicas (hipotireoidismo, hipogonadismo, diabetes melito) e falência cardíaca. Pode-se observar ainda doença crônica hepática, em decorrência da sobrecarga de ferro, mas também de infecções virais secundárias às transfusões repetidas. Avanços sucessivos no tratamento desta doença, bem como a aquisição de novas tecnologias, propiciaram maior expectativa de vida e melhora da sua qualidade. Na atualidade, as possibilidades de crescimento, desenvolvimento puberal e fertilidade são muito próxim~s às da população normal. Para determinar os prováveis fatores envolvidos na manifestação das alterações tireoideanas, foi estudado um grupo de vinte pacientes com beta¬talassemia maior, no qual observou-se prevalência de hipotireoidismo primário de 35%, muito superior à encontrada na grande maioria dos relatos da literatura e ausência de anticorpos anti-tireóide em todos os casos. Uma das hipóteses aventadas para esta prevalência elevada foi a de que estivesse associada à presença de alelos específicos, que poderiam estar diretamente relacionados à determinação das manifestações clínicas do hipotireoidismo. Entretanto, os alelos beta-talassêmicos observados neste grupo foram semelhantes aos mais freqüentemente encontrados no Estado de São Paulo, não havendo associação entre eles e a presença de hipotireoidismo. Encontramos diferenças significativas quando comparamos o grupo com eutireoidismo e o grupo com hipotireoidismo: estes últimos eram mais velhos, apresentavam menor tempo médio de intervalo entre as transfusões, maior número total de transfusões, maior idade no início da terapia quelante, maior in tervalo entre o diagnóstico da doença talassêmica e o início da terapia quelante, maior intervalo entre a primeka transfusão e o início da terapia quelante, concentrações séricas maiores de ferritina e de TSH e menores de T3. É provável que o mecanismo de instalação do hipotireoidismo seja decorrente, inicialmente, de um dano tecidual pela deposição de ferro com conseqüente exposição de antígenos celulares e, posteriormente, com a formação de anticorpos anti-tireóide. Uma vez que a freqüência dos anticorpos anti-tireóide elevam-se com a idade, em especial após os quarenta e cinco anos, com maior prevalência no sexo feminino, é possível que o grupo hipotireoideo ainda venha a apresentar positividade para estes anticorpos. Por outro lado, é possível que nestes pacientes a sobrecarga inicial de ferro, até que a terapia quelante tenha sido iniciada, seja de importãncia fundamental na determinação do hipotireoidismo, especialmente se considerarmos os relatos de que o início da quelação pode influenciar a preservação da função gonadal e o potencial de fertilidade. Seria interessante a observação do grupo atualmente eutireoideo, até que atinja a mesma média de idade do grupo hipotireoideo, para avaliar se o mesmo passará a apresentar freqüência semelhante de hipotireoidismo. Além disso, este acompanhamento permitirá, também, verificar a influência da demora no início da terapia quelante, assim como a possibilidade de desen~olvimento de anticorpos anti-tireóide