Resumo: A demanda global por concentrados de hemácias (CHs) atinge 85 milhões de unidades das 118,5 milhões de doações de sangue anualmente. A maioria das bolsas de armazenamento do CH é composta por poli(cloreto de vinila) (PVC), fóssil, plastificado com di(2-etilhexil)ftalato (DEHP), um ftalato, ambos com potenciais riscos transfusionais e ambientais, devido sua toxicidade. Tais riscos seriam possivelmente mitigados pela substituição do PVC por biopolímeros, por serem materiais amplamente biocompatíveis, não tóxicos e ambientalmente mais sustentáveis. Este estudo teve como objetivo selecionar biopolímeros como alternativas mais seguras e sustentáveis ao PVC em bolsas de CH. Foram triados no total 17 filmes poliméricos, agrupados conforme a origem de sua fonte, sendo eles: amido de mandioca, glucomanana konjac (KGM), acetato de celulose e óleo de soja os filmes de origem vegetal; fibroína de seda (sem sericina), fibroína da seda (com sericina)/KGM e quitosana sulfatada os de origem animal; celulose bacteriana, de origem microbiana; e poli(ácido láctico) (PLA)/poli(butileno adipato-co-tereftalato) (PBAT), de origem híbrida (vegetal/fóssil), sem e com poli(limoneno) (PLM). A triagem compreendeu três etapas: 1. Avaliação das propriedades físicas (resistência mecânica do PVC e propriedades físicas - gramatura, cor e opacidade - dos biofilmes) e estabilidade química à esterilização UV-C por espectroscopias no infravermelho por transformada de Fourier com refletância total atenuada (FTIR-ATR) e Raman, além de análise microbiológica dos materiais; 2. Exposição de filmes a CHs por 24 horas para avaliar alterações do volume, do percentual de hemólise (método de Harboe) e contaminação microbiológica dos CHs, bem como a adsorção de resíduos aos filmes (análise de imagem); e 3. Confecção de mini-bolsas de armazenamento, seladas termicamente, para monitorar glicose, lactato, pH, ATP, 2,3-bisfosfoglicerato, meta-hemoglobina, hemólise, apoptose, atividade enzimática, morfologia eritrocitária e perfis químicos dos CHs (espectroscopia Raman amplificada por superfície) e dos biofilmes (espectroscopias FTIR-ATR e Raman), durante 7 e 14 dias de armazenamento. Os filmes de origem vegetal apresentaram ausência de coloração e opacidade reduzida, mas sofreram alterações estruturais pela esterilização, além de induzirem alterações no volume e hemólise mais elevada nos CHs após exposição por 24 horas, assim como os filmes de origem animal e microbiana. Para estes últimos, também observou-se maior adsorção de resíduos. Apenas os biofilmes de óleo de soja e a blenda de fibroína da seda/KGM mantiveram hemólise dos CHs comparáveis ao controle. Embora mais opacos, as blendas de PLA/PBAT demonstraram perfil mais favorável: estabilidade à UV-C, CHs sem alteração de volume e com hemólise semelhante ao PVC, bem como poucos resíduos adsorvidos na superfície. Por serem os únicos com capacidade de serem termoselados em mini-bolsas, permitiram extensão da avaliação por até 14 dias. Nesta etapa, o PLA/PBAT (14%/86% e 55%/45%), principalmente sem PLM, preservou o metabolismo, a viabilidade celular, a morfologia das hemácias e o perfil químico dos CHs armazenados similarmente ao PVC, além de mostrar-se quimicamente estável durante 14 dias de armazenamento. Tais achados identificam blendas de PLA/PBAT como opções promissoras para dispositivos de armazenamento de CHs