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Type: TESE
Title: O terceiro estado em Guimarães Rosa : a aventura do devir
Author: Oliveira, Silvana
Advisor: Sperber, Suzi Frankl, 1939-
Abstract: Resumo: A proposta deste trabalho consiste em apresentar e operacionalizar a categoria do terceiro estado como ferramenta de reflexão para a análise de textos representativos da obra de João Guimarães Rosa. Ao considerar a narrativa numa perspectiva tradicional, tenho que o conflito proposto inicialmente como motor do enredo configura-se como o primeiro estado, enquanto a solução do conflito dentro da expectativa criada pelo primeiro estado resultaria no que eu chamarei de segundo estado. Ainda quando o aspecto da composição da narrativa se configura como motor do conflito, num arco metalingüístico, julgo possível acionar as referências a primeiro e segundo estados. Assim, o terceiro estado compõem com o primeiro e o segundo um triângulo circular, a partir do qual o conflito inicial se desestabiliza de tal forma que a solução/desfecho é re-alocada, ou seja, há uma subversão de expectativa e, na forma e no conteúdo, o texto presentifica o conflito. Nessa perspectiva, retomo as considerações de Gilles Deleuze sobre o rizoma e o dualismo atual/virtual, compreendendo que o terceiro estado se apresenta como uma solução rizomática, pois ele implica uma liberação de devires, o que acaba por subverter certas linhas duras, estabelecendo picadas (veredas) inéditas, imprevisíveis, capazes de reverter a expectativa que o enredo possa construir em princípio. Em paralelo às reflexões sobre os conceitos de rizoma e atual/virtual, procuro relacionar o terceiro estado à tradição do fantástico a partir do caráter reflexivo que as narrativas fantásticas propõem ao confrontarem a personagem com um fenômeno que não é passível de domínio a partir, somente, de uma ação racional. Na referência ao fantástico tradicional interessa, sobretudo, a idéia de encontro fantástico, ou seja, o que se dá entre a personagem e o fenômeno e possibilita o acontecimento no conto. Da mesma forma, interessa dizer o limite do discurso fantástico em relação à obra de Guimarães Rosa, uma vez que a referência imediata daquele discurso é o mundo racional, mesmo que numa perspectiva de negação. Tal oposição não se verifica na obra de Guimarães Rosa, uma vez que aí não é possível pensar numa relação polarizada com a razão, mas sim na configuração de um mundo ficcional em que a razão já é um efeito de subversão, pois não funciona como fundamento ou base para as narrativas. Nas narrativas fantásticas, o encontro entre o fenômeno e a personagem resulta, de ambos os lados, a um devir-outro, de modo que o elemento estranho e irracional vem a ser como que parte da personagem e, mais tarde, no desenlace, como que parte do mundo a que elas pertencem. Se nas narrativas fantásticas tradicionais, o fenômeno consiste num elemento perturbador de dimensões ameaçadoras e potencialmente destrutivas, cabendo à personagem subverter essa determinação, em Guimarães Rosa, o elemento - terceiro estado - que se insere de modo a alterar a lógica da experiência da personagem no mundo tem caráter intensamente rizomático, pois não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo (DELEUZE & GUATTARRI, 1995, p. 37). O terceiro estado configura-se, então, como potência do meio, pois não está no começo e nem no final

Abstract: This work introduces and puts into practice the category of the third state as a tool for reflection in the analysis of representative texts by João Guimarães Rosa. When considering the narrative in a traditional perspective, I believe that the conflict initially proposed to set the plot in motion is the first state, while the solution of the conflict within the expectation created by the first state would result in what I have termed the second state. I assume it is possible to refer to the first and second states even when the composition of the narrative can be said to put the conflict in motion, in a metalinguistic arc. Therefore, the third state forms, together with the first and second ones, a circular triangle, from which the initial conflict is disestablished in such a way as to relocate the resolution/denouement. In other words, the expectations are subverted and the text, in its form and content, updates the conflict. In that perspective, I make use of Gilles Deleuze's considerations about the rhizome and the current/virtual dualism, concluding that the third state is a rhizomatic solution, as it implies multiple possibilities of "becoming", which end up subverting certain preconceived notions and establishing new and unpredictable shortcuts, capable of subverting the expectation that the plot may raise at first. Concomitantly with the reflections on the idea of the rhizome and the current/virtual dualism, I aim at relating the third state to the fantastic tradition, departing from the reflexive character proposed by fantastic narratives when they confront the character and a phenomenon that is not appropriated through rational action only. In dealing with the fantastic tradition what matters, above all, is the idea of a fantastic encounter, that is, what happens between the character and the phenomenon and allows action in the tale. In the same way it is relevant to establish the boundaries of the fantastic discourse in relation to the work of Guimarães Rosa, once the immediate reference of that discourse is the rational world, even from a perspective of negation. Such an opposition does not occur in the work of Guimarães Rosa, once it is not possible to think of a polarized relation with reason, but of the configuration of a fictional world in which reason is already an effect of subversion, as it does not work as a basis for the narratives. In fantastic narratives, the encounter between the phenomenon and the character results, on both sides, in a transformation of "becoming", so that the strange and irrational element becomes part of the character and, later, in the denouement, part of the world to which they belong. If in traditional fantastic narratives the phenomenon is a disturbing element with threatening and potentially destructive dimensions, and it is the character's role to subvert that determination, in Guimarães Rosa, the element - the third state - that incorporates itself so as to change the logic of the character's experience in the world has an intensely rhizomatic nature, as it does not start or end, it is always in the middle, in between things, inter-being, intermezzo (DELEUZE & GUATTARRI, 1995, p. 37). The third state is thus, a middle power, as it is neither at the beginning nor at the end
Subject: Rosa, João Guimarães, 1908-1967 - Crítica e interpretação
Deleuze, Gilles, 1925-1995
Ficção brasileira - História e crítica
Filosofia francesa
Language: Português
Editor: [s.n.]
Date Issue: 2003
Appears in Collections:IEL - Dissertação e Tese

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